terça-feira, março 28, 2006

Freak like me

Carreguei no botão do elevador. A espera foi acentuada pois eu estava no oitavo andar. O tempo suficiente para que entretanto ela se colocasse atrás de mim, e nessa altura não disse uma palavra. Não quero presumir que fosse calculado, mas concerteza ela teria tempo de me ver sair, e também se decidir pelo mesmo. Eu saí porque já nada tinha a fazer ali, e mais tarde vim a saber que o mesmo sentimento a atacou à 1:45 da manhã.
A porta do elevador abriu-se. Eu sou um cavalheiro, e curvando-me ligeiramente com a mão esquerda estendida cedo-lhe a passagem. - Faça o favor. O sorriso tímido acompanhou-lhe os passos para uma entrada triunfal - Ainda há cavalheiros, pensou ela ? Segui-a. Não é meu hábito seguir mulheres, mas o destino prega-nos destas partidas.

Procurei à pressa aquele botão que fecha as portas do elevador, afinal estava sozinho com ela e não queria mais nenhum estranho a acompanhar a nossa descida. Atrapalhado, fui vencido pelo cronómetro do elevador e as portas fecharam-se sem qualquer interferência minha. A boa noticia é que descemos mesmo sozinhos. Ao meu leve sorriso, seguiu-se um pequeno suspiro dela que antecedeu a frase - Ainda tenho de apanhar o 83. A primeira de muitas que ela proferiu com a cabeça mais ou menos cabisbaixa, mas com uma certeza de quem fala quando apenas tem certezas. Eu continuava de frente para ela e de costas para a porta do elevador, e creio que nessa altura não hesitei.
- Se quiser eu acompanho-a à paragem. Não me lembro se houve silencio ou mais um sorriso tímido, mas eu continuei. - Aliás, se quiser eu levo-a a casa, pois o 83 vai para Gaia e eu sou de Gaia, não me custará muito. Se não se importar de ser transportada numa carrinha de trabalho.
Aqui não a tratava por tu. Ela aparentava ser mais velha que eu, uma senhora.
- Achas que eu me importo com essas coisas?

Aqui ela tratou-me por tu. Eu aparentava ser mais novo que ela, um jovenzinho.
- Eu acho. - Apenas pensei, sem o dizer. Acho sempre que elas se importam com estas coisas, por isso eu saio com a carrinha do trabalho. Se fosse o Joe King teria levado o Golf. Ele também acha que elas se importam com estas coisas.
- Está combinado - Sentenciei eu este assunto. O elevador chegou ao piso 0 e repeti o ritual de cavalheirismo.

A noite estava agradável. Não chovia, não olhei para as estrelas, mas senti que o céu estava descoberto. As mãos nos bolsos do meu casaco apenas testemunhavam a minha insegurança e não uma temperatura mais fria. Ao lado dela, fui nos encaminhando para o local onde estacionei a carrinha.
- Os homens de agora são uns cônas.
Esta frase ela não disse com a cabeça cabisbaixa, mas olhando para mim. Veio-me à cabeça o filme Taxi Driver, não porque associei ao facto de estar prestes a ser uma espécie de taxista, mas porque me lembrei do dialogo ao espelho "are you talking to me? i don't see anybody else here", acho mesmo que espreitei pelo meu ombro para confirmar se havia mais alguém ali. Por momentos senti o Joe King a querer mandar a boca habitual e desejei mesmo que ele se intrometesse. Acreditei na altura que ele teria uma resposta pronta e adequada. Acho que apenas me substituiu para soltar uma gargalhada. Felizmente chegamos ao carro, e o cavalheirismo necessário para lhe abrir a porta fez debandar qualquer diálogo mais anormal.
Pelo caminho, as conversas mais ou menos informais sobre o tempo, horários de autocarros, ao atravessar a ponte aponto-lhe a minha casa e digo-lhe que se estivesse lá, estaria a ver-nos neste momento. Pelo meio, a minha idade. Deu-me 20 e poucos anos. Teria deixado os óculos em casa? Revelamos os nossos estados civis. Ela enviuvou cedo. É a vida, a morte.
Eu conheço bem a cidade, e chegamos à sua rua sem qualquer indicação dela, apenas lhe pedi que me apontasse qual a porta, para a deixar o mais próximo possível. Ela indicou, sim, um local para estacionar.

- Estaciona aqui e sobe, ainda é cedo.
Os rituais do elevador repetiram-se, desta vez sem necessidade de fechar a porta à pressa.
- Vivo sozinha neste piso.
Era o quarto, andar. Casa bonita, arrumada, com um ou outro souvenir de umas férias de classe média. E lá estavam os óculos ali pousados no móvel da entrada, com ar tristonho de quem foi esquecido nessa noite. Na sala uma mesa com muitas fotografias. De todas elas apenas reconheci a sua cara. As outras, fui sabendo, uma a uma, que eram de pessoas falecidas. O marido, um homem bem aparentado, robusto, aparentemente afável, que me fez imaginar o quão seria fácil para ela amar alguém assim. Um miúdo de onze anos, filho do primeiro casamento do marido. E outras pessoas que pela ordem natural das coisas, me foi mais fácil imaginar que já não estariam entre nós. Estávamos então sozinhos.
- Senta-te. Vou-te preparar qualquer coisa.
Estive para dizer que qualquer coisa não, preferia uma cerveja fresca, pois estava calor, mas ela já tinha saído da sala, e só voltou quando parece que adivinhou que eu finalmente me tinha decidido a sentar. Sentou-se ao meu lado, pousou um tabuleiro com uma cerveja e um sumo. Olhou para mim. Sorriu. Timidamente. Disse:
- Gostas?
Coloquei-lhe a mão sobre a a parte mais alta da face e deixei-a escorregar até ao pescoço. Não me esqueci de lhe sentir o lóbulo da orelha. E beijei-a.
O despertar de sentidos e emoções que o acto acarreta, deixo a descrição para os escritores que não leio. Eu fico com a recordação do mesmo para mim. E do que veio a seguir. Fui correspondido. As horas passaram, encobertas pelos olhares que íamos deitando um ao outro. Descobertos, adormecemos.
As horas passam enquanto dormimos. Mesmo de dia. Isso sabemos todos. O sol tapado pelas nuvens devia estar no pico do meio dia quando a realidade voltou na forma de compromissos que teria de cumprir nesse domingo.
- Tenho de ir. - Disse-lhe. Ela sabia onde eu tinha de ir.
À saída do elevador, mais um beijo, mais uns carinhos, mais uma eternidade de olhares. Mais uma pergunta que me restava fazer.
- Essa desfiguração que tens na cara. Como aconteceu?
- Foi um acidente que tive quando ainda era bebé.
Com a certeza de quem fala quando apenas tem certezas, a ultima frase dela foi:
- Não sei se nos vamos ver mais.
- Não sei. - Respondi.
Eu só sei que nunca tenho certezas.
Entro na carrinha e ligo o rádio. Macy Gray começava a cantar.
....
sorry that I'm late
I been searchin' for something great
something to fill me up
he said join the club
then we made love till my body ached

and baby when you have the time
I wanna tell you what is on my mind
I gotta get it off
cause it's so heavy
after what we did the other night
I wanna be with you for all my life
I'm so glad you're a freak like me


--------------- W - Raw Shark - W -------------

sexta-feira, março 17, 2006

Mais leve que o ar

Há tempos, quando nestes dias de Março, irrompeu uma leve Primavera antecipada, deparei-me a olhar para os pássaros que esvoaçavam em frente à minha janela, quando comecei a sentir que o Mind se juntou à minha contemplação.
- Gostavas de poder voar? - Perguntou com o seu habitual tom sereno que apesar de, como sempre, desprovido de qualquer emoção, calculei que o objectivo seria mostrar as minhas limitações.
- Nunca poderei voar - disse eu, tentando arrumar logo a questão das limitações, e continuei - Tudo o que voa é mais leve que o ar.
- Tenho de te contradizer. Mas isso não é verdade. Os pássaros são mais pesados que o ar.
- Como sabes? - Perguntei.
- Já pesei um. - Respondeu imediatamente.
- Sim, mas... ele estava a voar quando o pesaste?
O silêncio que se seguiu e o seu semblante carregado, fez-me esboçar um sorriso.

-------------------------- Raw Shark --------------

segunda-feira, março 06, 2006

Que EU és TU ?

Responde ao seguinte questionário. Aponta as tuas respostas e no fim confere a pontuação e verifica que EU és TU.

1- Para ti dever cívico é:
a) Lutar pelo direito de fumares em locais públicos
b) Ser candidato a presidente da República
c) Envergar cartaz contra os touros de morte em Barrancos, no dia das festas

2) Que tipo de musica preferes:
a) As minhas próprias composições
b) Ah... o silêncio tambem é musica?
c) O que a minha companheira/o gostar, eu fingo que gosto


3 - Encontras numa festa um amigo de infância, mas ele não evoluiu como tu e faz figuras ridículas:
a) Passas a noite com ele tentando afasta-lo das outras pessoas
b) Passas a noite com ele e no dia seguinte contas aos teus novos amigos como te riste à gargalhada com o ridículo do teu amigo de infância
c) Aconselhas o teu amigo a ler "Os Maias"
e "Os Escrotinhos"

4 - À saida do filme Brokeback Mountain, comentaste:
a) Ang Lee é um bom realizador. Que lindas paisagens.
b) Paneleiros !!!
c) É uma historia sobre relações extra conjugais

5 - Na rua vês uma mulher a bater num homem. Tu pensas:
a) Eles que se entendam
b) Não vale a pena fazer queixa à APAV, porque é um homem a vitima
c) A tradição já não é o que era

6 - Depois de copular, tu:
a) Fumas um cigarro
b) Páras o cronómetro
c) Ligas-te à internet à procura da próxima queca


7 - Vini, Vidi, Vici quer dizer:
a) Vinho Verde Vranco
b) I am what I am
c) Não sei. Não falo espanhol

8 - E=mc2:
a) Consegues provar o que dizes?
b) Hoje é. Amanha não.
c) Eisntein devia ter sido relojoeiro


9 - Quantos filhos pretendes ter:
a) Primeiro tenho de encontrar uma pessoa que queira ter um filho meu
b) Povoarei toda a terra com rebentos
c) Um casal perfeito concebido em laboratório

10 -Deus:
a) Está morto
b) É uma banda belga
c) É todo poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis

PONTUAÇÃO:
Todas as respostas tem o valor de 3 pontos. Faz a soma e confere abaixo os resultados.

  • 0 a 2 Pontos - Não tiveste pachorra para responder às questões. Parabéns.
  • 3 a 29 Pontos - Volta a responder porque te esqueceste de alguma questão, ou então chumbaste a matemática.
  • 30 Pontos - Parabéns ! Tu és Tu.
  • Acima de 31 pontos - Fizeste batota - como diria o Bush "Fool me once, shame on - shame on you. Fool me - you can't get fooled again"

sexta-feira, março 03, 2006

I Don't Mind

A eternidade faz-me bocejar. Uma eternidade de possibilidades com apenas uma certeza. A eternidade é minha. E eu não me importo.
Ter um lar, que me chama diariamente. Ali tenho conforto, mas não me importo. Ali tenho descanso, mas não preciso.
Uma cidade. Onde sou admirado. Onde sou temido. Multidões que me olham, ou evitam o olhar. Eles são macios, fracos. Eu duro e forte. Eles preocupam-se. Eu não me importo. Um dia morrerão. Eu sou eterno.
Tomo as minhas refeições, e os sabores já não me dizem nada. A musica é ruído, a arte castrante. O espectro limitado das suas cores. A televisão histérica, ainda assim, estática.
Deito-me, como as pessoas. Para simular o sono. Não sonho. Porque, para mim, o sonho é a realidade, eternidade. E a eternidade é minha.
Ler. Devagar. Tão devagar quanto posso. Os livros finitos e a eternidade é minha.
Penso. Já pensei sobre toda a eternidade, e tenho ainda toda a eternidade para o fazer. Mas não desisto de pensar. Existo.
Levanto-me. Tomo banho. Visto-me. Vou para um trabalho. Uma distracção para mim. Um inferno. Fingir como eles. Ser perfeito. Imperfeitamente perfeito. Devia sentir companheirismo, equipa, objectivos comuns, pelo menos. Mas não me importo. Eles também não. Suspeitam. Desconfiam. Pensam que sou como eles. Desprezam-me. Desprezam-se.
Enganaram-se na carreira. Deviam ser actores. Como andam, como gesticulam, como gritam ou simulam um tom de voz grave, sensual. Mas sempre soam histéricos. Como na TV. Pensam que não reparo. Que não ouço. Eu não me importo.
Um dia lhes mostrarei a verdade. Iriam detestar-me. Chamar-me-iam louco. Ameaçar-me-iam. Não me importo. Apenas tenho medo de uma coisa. Eu próprio. Tenho medo do que faria se fosse realmente louco. Do que faria a estas pessoas, a este mundo, se lhes revelasse a verdade. Tento evitar este pensamento, mas é o único que ainda me desafia. Uso a lógica, para medir as consequencias - Para mim. Evito pensar nisso - Pelos outros.
Não sou louco.
Sou a sanidade personificada.
Só, não me importo.
----------------------- Mind ----------------------

quarta-feira, março 01, 2006

Gente e só (part one?)

O tempo passa
e tudo dá em nada
O tempo fica
e eu não sei ser
Gente que por ali passa
Gente que por ali fica

Gente que por ali passa
Putrifica

Purifica
Pura e fica

Ignoto Deo 1987